Os dois homens, a mulher, Wilde e a rosa. (Oh Comely, by Neutral Milk Hotel)

Tenho a plena consciência que esse texto destoa da rotina do blog e não alimento muitas esperanças das pessoas lerem-no, mas é fruto de um devaneio que tive ao escutar uma certa música repetidas vezes e que me fez sentir a necessidade de escrever.

Subia os degraus da escada aos pulos; começara com isso como método de ganhar tempo, e agora havia virado hábito. Trepidou levemente no último — ‘’aquele que diz que o maior inimigo da pressa é a perfeição provavelmente não conhecia os malogros de uma escada’’— e avançou pelo corredor mal iluminado com aquele indefinível ar confiante de quem fazia esse trajeto constantemente. Passou o buquê de flores de uma mão para a outra, e com a livre bateu ritmicamente por cinco vezes na porta, conforme o combinado. Não havendo resposta, repetiu o ato por mais algumas vezes até, por fim, ouvir passos discretos e abafados pelo carpete do quarto que conhecia tão bem. Se estivesse em plenas faculdades mentais, se não estivesse tão demasiadamente eufórico pelo encontro, haveria de notar a estranheza do som dos sapatos cruzando o recinto do outro lado; nunca que aquelas passadas pesadas e lentas poderiam confundir-se com as quase imperceptíveis pisadas suaves de sua amada, cujos delicados pezinhos mal pareciam tocar o chão. Certa vez indagara-lhe se apenas deslizava pelo chão, feito alma etérea, ao que ela lhe respondera com sua espirituosidade rotineira: não seria possível, pois minh’alma já é tua.

Portanto, era de se esperar que ele reconhecesse a disparidade do retumbar inclemente que parecia querer ferir o piso sob os pés, mas, traído pelo coração desatinado, não o fez. Não era a primeira vez na história que o coração encerra o destino de um homem.

A porta abriu-se com um langor digno de filme de Hitchcock, e da fresta o brilhante cano de uma pistola saudou-lhe de forma (muito) diferente da que havia imaginado ao sair de casa. Perplexo e sentindo o horror atingir-lhe o corpo num frêmito, até ameaçou uma fuga ao inclinar-se para trás, mas a voz do homem, cujo rosto ainda estava amoitado pela sombra da porta, alertou-lhe para que não o fizesse. ”Não costumo errar dessa distância”, dissera calmamente, restando ao outro somente acreditar. O homem-dos-passos-pesados-e-da-voz-anormalmente-grossa convidou-o cordialmente a entrar, usando de uma gentileza que o porte da arma certamente dispensaria, e no momento que seus pés cruzaram a soleira da porta, sentiu os sapatos deslizarem nalgum líquido escarlate que um rápido exame confirmou ser sangue. Apercebendo-se da tragédia e sentindo os nervos ribombarem como numa fanfarra enlouquecida, seguiu a macabra trilha vermelha com o olhar e encontrou, jogado displicentemente no chão à maneira de um tapete de peles, o corpo daquela que chamara de sua por meses sem fio; daquela que possuíra sob o mesmo chão que agora lhe era o momentâneo jazigo, daquela dona dos pezinhos leves que cativavam-lhe mais do que fariam-no ao mais fanático dos podólatras. Os olhos — abertos e dotados daquela opacidade melancólica que só a morte pode conferir — pareciam fitá-lo como se quisessem transcender a barreira física e espiritual que agora separavam a dona do amado, e imediatamente sentiu a mesma angústia de Romeu e principalmente Julieta. Nos tempos de escola, sempre discorria sarcasticamente aos colegas sobre a idiotice da cena do terraço, mas agora compreendia o poder de um coração arrasado e aneloso por ser definitivamente inutilizado. Em sua mente pediu perdão à Romeu, e o Romeu de sua mente perdoou-o solenemente, o que não lhe era conforto — algum dia algo poderia confortá-lo novamente?

Imerso no turbilhão de emoções que o pregara ao chão, mal percebeu que as lágrimas escorriam profusamente pela face, salgadas, sangrentas, incandescentes, regando-lhe os pêlos da barba por fazer — aliás, só a deixava assim porque ela dizia que gostava — e caindo lânguidamente no tapete, misturando-se ao sangue dela assim como ele gostaria de estar novamente em fusão com seu amor. O homem da arma, sentado descontraidamente numa cadeira simples ao pé da cama, fitava-o sadicamente com um pequeno sorriso torto no rosto; nos lábios crispados pelo prazer de ver o outro sofrendo, encontrava-se um cigarro cuja brasa já se aproximava perigosamente do filtro. Cruel, tirou-o da boca e o jogou nas costas desnudas e gélidas do cadáver antes de abordar o amante de sua esposa. Encarou-o com interesse, perscrutando-lhe o talhe pensativamente.

— Achei que você seria mais alto. Ela gosta… — mexeu no braço inerte desta com a ponta dos sapatos sujos de sangue — … gostava de homens altos. —
O outro encarou-o inexpressivamente; passado o momento da descoberta, estava agora no limbo entre o lamento e a fúria. A um homem de mais ímpeto talvez escapassem palavras de tristeza, tresloucadas ou furiosas dos lábios, mas a este em especial as palavras pouco importavam. Compreendeu a inutilidade da frase que seu avô cismava em soltar à guisa de conselho, ‘’palavras são mais nocivas que ações’’. Amaldiçoou-o naquele momento, principalmente porque acreditara nisso durante muito tempo. Curioso, o marido de seu amor lembrava-lhe vagamente seu avô, como na postura ou nos trejeitos das mãos que reviravam a arma. Ou talvez somente pelo fumo.

— Porque isso? — Proferiu bem baixinho por entre os lábios consternados, como se quisesse evitar que a amada ouvisse do chão.

— Impressionante. Com tantas perguntas a se fazer, indaga-me a única coisa da qual já sabe a resposta. — Mas o outro não ouvia-lhe as palavras, não realmente. Olhava-o, é verdade, mas apenas para refletir o porquê dela haver casado com ser tão… desumano. Ouviu o engatilhar da pistola e preparou-se para o pior, mas o homem riu-se de seu retesar. Por mais sarcástico que tenha sido o riso, o som dele lhe soava estranhamente indiferente, como se coisas simples e alegres como risadas já não lhe fossem mais tangíveis. Estava certo.

— Aquieta-te, colega, que a bala não é pra você.

— Que quer dizer? — Ignorando-o prontamente, o homem da arma ergueu-se e começou a andar a esmo pelo quarto manchado de sangue.

— Ao contrário do que provavelmente deve pensar, não foi unicamente por ter amantes (sim, plural; espero que não seja arrogante ao ponto de achar que era o único) que findei-lhe a existência. Claro que isso auxiliou, mas não foi o estopim.

— Que foi, então? — Não muito interessado na resposta, o outro continuava pregado no mesmo lugar e agora voltando a encarar o rosto sem vida e pálido no chão. Num lamento, suspirou e proferiu o nome dela ao ar do quarto, o que não passou despercebido pelo marido.

— Chame-a enquanto quiser, duvido que obtenha uma resposta. Mas quisera eu que fosse algo apenas de ódio, ou de amor. As pessoas vivem perdoando umas as outras quando o assunto é esse. Não, não, ela foi mesquinha; nem o ódio conseguiu despertar-me, apenas um profundo desinteresse. É paradigmático pessoas perderem o controle em situações de extremo ódio ou extremo amor, mas eu discordo. O descontrole pleno só vem com o tédio… e como Wilde tão sabidamente salientou, ‘’o tédio é a única coisa para a qual não se tem perdão’’. —

O outro observava-o sem entender, ou sem querer entender; o que ouvia pareciam-lhe desvarios incompreensíveis — usar o bom Wilde para justificar uma atrocidade dessa parecia-lhe tão horrível quanto a própria tragédia. Adiantou-se, sem saber o que faria, mas ao primeiro passo o homem pressionou o revólver contra a própria têmpora, o que levou-o a estacar pela terceira vez.

— Apesar disso, eu a amava. — Continuou, aproveitando o fato de que o amante de sua esposa ao menos era bom ouvinte. — Amava-a desesperadamente. Mas agora termino minha vida, não para encontrá-la novamente n’algum plano espiritual, mas para fugir da presença dela em vida. Pois antevejo que a verei em todos os lugares; até em você percebo-a, como se quisesse usar seus olhos para falar-me algo mais. Não olhe assim para mim, fazendo o favor. —

O outro desviou o olhar para o chão, sentindo as lágrimas novamente germinarem nos olhos ao ouvi-lo falar que a via nele. Instantes seguintes sobressaltava-se com o disparo, mas não ergueu à cabeça; de alguma forma, realmente sabia que a bala não era pra si. Via-se agora num quarto com dois corpos sem vida, ou melhor, um quarto com dois corpos cujas vidas ele ajudara a destruir. O amor ajudara a destruir. Até Wilde ajudara a destruir.

Passou a língua por sobre os lábios secos, sem olhar para os restos do homem que discursava há segundos, e obrigou o corpo a mover-se na direção da amada. Ajoelhou-se, manchando os joelhos com seu sangue, e depositou-lhe um ósculo no topo da testa fria. Colocou o buquê nas mãos que em vida gostavam de brincar inocentemente com seu cabelo, e chorou como nunca havia chorado antes.

A rosa branca era agora a mais vermelha.

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2 Respostas to “Os dois homens, a mulher, Wilde e a rosa. (Oh Comely, by Neutral Milk Hotel)”

  1. Lindo! me emocionei com o final, escreva mais =D

  2. Manero O.o

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